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FlamengoCopa Libertadores da América - Roubados na Argentina (O Truque Do Cambista)

Pela experiência e liderança, eu e o Zé éramos, sempre, "os chefes da delegação" (torcida), principalmente nas viagens internacionais. Fosse para reserva de passagens, hotéis, refeições ou câmbio. Numa dessas, passamos um aperto: da minha parte, descuido do Zé; na opinião dele, talento de um trambiqueiro. Copa Libertadores de 1983, jogos no Uruguai e na Argentina. Na Argentina daquela época o peso (dinheiro deles) não valia nada, e a única coisa segura de carregar no bolso era dólar. Brasileiro que tenha mais de um ano de vida sabe muito bem como é. E o pior: o câmbio era uma zona, com cada casa pagando de acordo com a cara do freguês. Na rua, com os cambistas, a troca era muito mais vantajosa.

Para conseguir uma taxa bem favorável tivemos a idéia de fazer um pool: arrecadar os dólares da galera e trocar por pesos. E distribuir a parte de cada um. Mas, como sempre, o dinheiro era curto (todo mundo duro) e era difícil resistir à oferta dos cambistas, na rua. Sentindo-nos como dois traficantes, fechamos o preço com um cambista em plena "Cale Florida" (a rua Visconde de Pirajá deles). O cara fazia a operação olhando para todos os lados, como se a polícia fosse chegar a qualquer momento. Morríamos de medo, mas seguimos em frente, para mostrar que éramos os " fodões". O trabalho de contar a grana era do Zé. Ele é fera na matemática e fazia as conversões rapidinho. Tudo acertado, fizemos a troca e contamos o nosso dinheiro, pois o Zé já tinha calculado quanto iríamos receber em pesos. O cara contou os pesos na nossa frente e os entregou enroladinhos, feito canudo. Antes de entregar os dólares correspondentes, o Zé pediu para recontar os pesos, no que o "jabazeiro" concordou. O Zé Carlos contou a grana, recontou e não gostou. Falou:

- Está faltando plata, señor - soltou ele no portunhol.

Pensei: ih! Vai dar merda. O cara ia, no mínimo, sacar uma arma e acabar com o papo ali mesmo. Ele fez uma cara de espanto e pediu para contar os pesos novamente. Na nossa frente, ele contou, recontou, e concordou que estava faltando sim. Pediu desculpas, completou o que faltava e novamente enrolou o pacote de dinheiro em forma de charuto, passou um elástico e nos entregou (e continuava olhando para todos os lados, desesperado). Foi tudo tão claro, que nem recontamos a grana. Entregamos os dólares respectivos e o cara sumiu, escafedeu-se.

Quando chegamos ao hotel, e fomos distribuir o dinheiro para a galera, foi que o Zé resolveu contar o dinheiro. Aí, mistério. Todas as notas graúdas (vamos dizer, 100.000 pesos, por exemplo) haviam desaparecido. Ficamos loucos, achando que tínhamos perdido tudo. O Zé Carlos jurava de pés juntos que não tinha perdido nada, que o cara tinha roubado a gente.

- Como roubado, Zé? Só se ele é o maior mágico do mundo. Ele estava com o dinheiro na mão, você viu! Mistério... Se fosse só dinheiro nosso, tudo bem, mas era dinheiro do pessoal. Tinha gente somente com aquilo. Para evitar confusões, reunimos todos e relatamos o corrido, mas afirmando que todo mundo ia receber de volta no dia seguinte. Muito contrariado, esqueci os casacos de couro e os tênis que queria comprar. Nós dois morremos no prejuízo. Reunimos nossa grana e começamos a devolver o dinheiro pro pessoal. Ficamos durinhos...O Zé, puto, devolvia e resmungava:

- Foi um truque, o filho da puta enganou a gente. É por isso que turista argentino tem mais é que ser roubado no Rio. Recentemente, o Zé me ligou para contar que leu num guia de viagens americano, desses que explicam ao gringo como se aventurar pela América do Sul, a descrição exata do golpe que sofremos, nos mínimos detalhes.

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