"Quem um dia experimentou a emoção de ser Flamengo, nunca mais vai viver outra que se equipare."
Meu jogo inesquecível - Zico
Foi a vingança da classe contra a violência. O jogo do Flamengo contra o Cobreloa, em Santiago do Chile, não foi uma partida de futebol. Foi uma guerra. Os brasileiros jogaram contra inimigos. O galinho do Flamengo conta como foi o seu Jogo Inesquecível.
"Era o terceiro jogo da decisão da Taça Libertadora de 1981, contra o Cobreloa, do Chile. Uma série de circunstâncias havia transformado aquela partida desempate em verdadeira questão de honra. No primeiro jogo, é verdade, realizada no maracanã, eles não usaram de nenhum expediente antiesportivo. E nem podiam: vitória do Flamengo por 2x1, com dois gols meus e muita tranqüilidade. Já no Chile, resolveram transformar a partida em uma verdadeira guerra entre nossos países. Por isso, entramos em campo como inimigos, em um estádio cercado por cães de guarda e em um vestiário vigiado por policiais armados, no auge do patriotismo patrocinado por aquela ditadura brava do general Pinochet. Em campo, para piorar as coisas, esbarramos no mal-intencionado árbitro uruguaio Ramón Barreto, não por acaso conhecido naqueles tempos como Dom Ratón Barreto. Eles ganharam por 1x0, gol de Leandro contra, e tinha cara jogando até com pedra na mão. De repente, sem mais nem menos aparecia um companheiro do meu lado com o rosto inchado ou cortado. Tudo isso sob o olhar complacente do árbitro".
Para continuar, Zico tomou fôlego e comentou sobre a final, o jogo da decisão.
“Depois daquela batalha, nos reunimos no hotel e decidimos que iríamos ganhar desse time no peito e na raça. Iríamos mostrar que nós somos melhores. A negra foi marcada para uma segunda feira, dia 23 de novembro. No sábado, já estávamos em Montevidéu, local escolhido para o jogo-desempate. Pode não ter sido uma das partidas mais brilhantes daquele grande time do Flamengo, mas foi, de longe, uma das mais emocionantes. Logo de saída, começamos dando um sufoco. O goleiro do Cobreloa fazia milagres e a bola não saia da área dos chilenos, até que finalmente consegui abrir o marcador aos 17 minutos”.
“Voltamos para o segundo tempo ainda ganhando por 1x0. Sentíamos que não havia mais o que temer, principalmente porque, para nossa sorte, o árbitro, também uruguaio, de nome Roque Cerullo, desta vez, era um disciplinador. Até o final do jogo, expulsou três chilenos. Em nenhuma momento entramos no jogo violento dos chilenos. Tanto que a torcida uruguaia ficou ao nosso favor. Faltavam ainda alguns minutos para o jogo acabar quando apareceu uma falta, naquela posição que eu chamo de – lado bom. Eu já tinha batido uma pouco antes, em que o goleiro saiu para trás da barreira e evitou o gol. Então, pensei: basta bater onde ele estiver, porque vai se mexer de novo. Quando o goleiro Wirth deu um passo, dançou: era o segundo gol e a conquista do titulo inédito para o Flamengo. Aquela maratona, em que jogamos três decisões em 25 dias – o Carioca contra o Vasco, a Libertadora contra o Cobrebola: o Mundial Interclubes – estava perto do fim. Comemoração, porém, só depois da batalha final contra os ingleses do Liverpool , em Tóquio. Tudo graças àquela vitória contra a violência e o antijogo do Cobreloa. Ali foi o início da apoteose do rubro-negro, o dono do mundo em 1981.
Dia 23 de novembro de 1981.
Flamengo 2 x 0 Cobreloa
Gols de Zico.
Estádio Centenário de Montevidéu.
Juiz: Roque Cerullo.
Expulsos: Andrade. Anselmo (Flamengo). Alarcon. Jimenez e Mario Soto (Cobreloa).
Flamengo: Raul. Nei Dias. Marinho. Mozer e Junior. Leandro. Andrade e Zico. Tita. Nunes (Anselmo) e Adilio.
Técnico: Paulo Cesar Carpegiani.
Cobreloa: Wirth.Tabile. Paes (Munõz). Mario Soto e Escobar. Jimenez. Marello e Alarcon. Puebla. Siviero e Washington Oliveira.
Técnico: Vicente Cantatore.
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