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FlamengoZico 50 anos.

Chego aos 50 anos sem sentir a crise de 20, 30, 40, de nada

A noite chegava quando Zico desceu ao pátio do seu centro de futebol, o CFZ. Logo foi cercado por crianças que nasceram quando o ídolo já havia pendurado as chuteiras. O fascínio, porém, era o mesmo dos tempos em que levantava troféus e destruía defesas como se tudo fosse fácil. Nesta entrevista, Zico faz um balanço dos 50 anos e fala do futuro.

Fellipe Awi e Tadeu de Aguiar

Qual o balanço que faz ao chegar aos 50 anos?

ZICO: Chego aos 50 anos realizado como jogador. Já fui secretário de esportes, tenho uma equipe profissional e um centro de futebol para crianças. Por fim, numa situação que não esperava e não queria, virei técnico. Eu me sinto um privilegiado.

Esperava conseguir tudo o que conseguiu?

ZICO: Deus foi muito generoso porque entrei para o futebol só pelo sonho de criança, de torcedor do Flamengo, de vestir a camisa 10 do meu ídolo Dida. De cara, realizei esse sonho. Hoje vejo que as crianças são pressionadas a entrar no futebol para resolver a vida delas e da família. Naquela época, meu pai nem queria deixar meus irmãos jogarem. Futebol não era trabalho, era divertimento. Por tudo aquilo que o futebol passou a exigir, tive que fazer daquilo minha profissão. Fui o único da família que não me formei. Meu pai ia me puxar a orelha se estivesse vivo. Consegui no futebol tudo e mais alguma coisa.

Tem medo de envelhecer?

ZICO: Chego aos 50 anos sem sentir crise de 20, 30, 40, de nada. É como se eu tivesse chegado aos 20. Cada coisa que eu realizo, já planejo uma outra.

Como um profissional realizado, o que dá para planejar daqui para a frente?

ZICO: Ainda vislumbro a possibilidade de o meu time, o CFZ, estar entre os grandes do futebol brasileiro. E minha grande realização vai ser levar o Japão à Copa de 2006 e ter bons resultados fora da Ásia. Até hoje nenhuma seleção asiática se deu bem fora do continente. Hoje, o Japão está igual à África, cedendo jogadores para a Europa. Quando você poderia imaginar que um time italiano, inglês ou holandês fosse negar a liberação de um jogador japonês? É sinal de que eles já fazem falta lá.

Há algum jeito de o Flamengo entrar no seu futuro?

ZICO: Pela primeira vez, no início do ano passado, pensei numa ligação direta com o Flamengo: ou uma presidência ou um comando do futebol, como no Kashima. Cheguei a conversar com um pessoal da Nike. Mas, quando fui para a Copa de 2002, recebi convite para treinar o Japão. E também, quando eu estava conversando com esse pessoal, três dias depois saiu a história toda no jornal. Aí também já fica difícil confiar, né? Agora, mais para frente, nunca se sabe.

De vez em quando, sente uma nostalgia dos seus tempos de Maracanã lotado?

ZICO: Sinceramente, não. São tantas coisas que faço que não dá nem tempo de pensar nisso. A primeira vez que senti alguma coisa foi no Japão, onde fui convidado para assistir ao primeiro jogo nas eliminatórias da Copa de 98. Quando o Japão entrou em campo, foi de arrepiar. Aí me veio à cabeça os meus momentos de Flamengo, de seleção. Levou-me a uma volta no tempo. Talvez porque eu estivesse me sentindo parte de tudo aquilo. Atualmente, quase não vou mais ao Maracanã e, quando vou, não é mais aquele Maracanã da época em que eu jogava. Até o clima é diferente. Deve ter uns seis anos que não vou ver jogo lá. Mas continuo torcendo muito em casa para o Flamengo.

Cite um momento marcante de sua vida, bom ou ruim.

ZICO: Foi a recuperação da cirurgia depois da Copa de 1986. Quando voltei, sabia que tinha de fazer uma cirurgia no joelho. Aí fui para os EUA operar. Ali foi o momento crucial. Falei para o médico: se você me der 5% de chances de voltar a jogar, vou lutar. Já tinha 33 anos e era uma cirurgia raramente feita em jogador de futebol. Hoje, seria mole, por causa das novas técnicas. Quando vi a operação, eu chorei. O médico passou uma broca no meu joelho, como se fosse uma furadeira furando parede. Tive de tomar morfina para agüentar as dores. Incerteza pura. Com seis meses, eu ainda não conseguia correr.

Esse foi um momento dramático, embora de final feliz. E um momento de alegria?

ZICO: Foram muitos, graças a Deus. Um deles foi o período áureo do Flamengo, que ganhou todos os títulos possíveis. Foram cinco anos fantásticos. Outro foi o Brasileiro de 1987, quando a torcida do Flamengo reconheceu todo o esforço que fiz para jogar. Aquela final com o Inter foi marcante. Quando vejo imagens daquele jogo, ainda me arrepio.

Sente falta de alguma coisa na carreira?

ZICO: Em termos de título, só faltou a Copa. Mas não foi isso que fez a minha carreira. Faltou título mundial para muitas feras. Consegui demais, nem posso dizer o que faltou. Fui além. Consegui muito, mas também fiz por merecer porque trabalhei muito. Eu me dediquei à minha profissão.

Teve algum medo?

ZICO: Meu único medo foi o de não voltar a jogar depois da cirurgia no joelho. Não queria terminar minha carreira por causa de contusão. Foi a única coisa que pedi a Deus para não acontecer.

Quem foi o melhor técnico com quem trabalhou?

ZICO: Não é questão de ser o melhor, mas o que tinha os mesmos princípios que tenho de futebol: é o Telê. Era a técnica, o jogador, o trabalho, a disciplina, a lisura, a valorização do jogo.

Quem foram os marcadores mais difíceis?

ZICO: Pintinho e Zé Mário

E o melhor companheiro?

ZICO: Tive mais afinidade com Nunes, Adão e Doval.

Hoje, seria mais fácil ou mais difícil jogar?

ZICO: Só sei que seria menos cobrado hoje. Na final do Brasileiro de 1982, contra o Grêmio, recebi uma bola no meio, meti uma caneta e dei para o Nunes fazer o gol. Aí fui criticado, disseram que não joguei nada. Hoje, o cara faz um gol e vira manchete para tudo o que é lado. Eu era muito questionado mas achava legal porque sabia que, se cobravam, é porque queriam mais. Lembro-me de ter feito três, quatro gols e ter recebido nota 2 ou 3.

Vê algum brasileiro com seu estilo de jogo?

ZICO: O Rivaldo é um pouco assim, embora ele seja mais importante na finalização que na armação. Atrás, prende a bola demais, já disse isso a ele. A questão é que quase não existe mais a minha função. Jogava como atacante e meia. Diziam que era um arco-e-flecha, lançava e atacava.

O que o futebol de hoje tem de mais diferente do da sua época?

ZICO: Não tem mais aquele coleguismo, camaradagem, combinação de jogadas. Hoje, o treinador vai ao campo, acaba o treino e pronto. Treinar a mais é o que diferencia. Pega uma fita de gols meus: se eu pudesse dar um toque só, eu dava. Isso porque eu ficava meia hora treinando de tudo que é jeito. Esse era o grande diferencial. Eu achava que precisava disso.

O que pensa dos privilégios para os craques?

ZICO: Até brinquei outro dia com o Júnior: vocês nunca correram para mim, eu corri para muito garoto (risos). E ninguém se incomodava de ver, em algumas situações, os louros virem mais para mim. No resto, era tudo igual: eu treinava igual, corria igual, viajava igual, jogava todos os jogos. Às vezes, em viagens, vinha um comissário querendo agradar me botando na primeira classe. Aí eu perguntava: dá para botar mais?

O que é mais fácil: ser jogador, técnico ou dirigente?

ZICO: Jogador, né? Apesar de levar porrada, jogador é mais fácil. Depende de você, embora seja jogo coletivo.

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