Cup of Brazil

Flamengo Campeão da Copa do Brasil 2006

Único time carioca campeão da Copa do Brasil até então, o Flamengo, que já havia chegado à decisão da competição duas vezes nos últimos três anos, contra o Cruzeiro em 2003, e contra o Santo André em 2004, voltou a grande final em 2006, tentando se redimir das últimas decepções. Nada melhor do que enfrentar o Vasco da Gama, grande rival, e freguês na história recente de confrontos entre as equipes em finais, para conquistar esse importante título.

O Rubro-Negro chegou à final após passar pelo Ipatinga-MG, nas semi-finais. E foi do time mineiro que veio o treinador que levou o Flamengo ao título. Após demitir Waldemar Lemos, o departamento de futebol contratou Ney Franco para comandar a equipe. Já o Vasco, em uma semi-final carioca, derrotou o Fluminense, formando assim, a primeira final de Copa do Brasil entre dois times do mesmo estado na história.

A primeira partida da decisão foi realizada no Maracanã, no dia 19 de julho de 2006. O ataque do time da Gávea funcionou, a equipe de Ney Franco deu um nó tático nos cruzmaltinos, comandados por Renato Gaúcho, e com uma vitória por 2×0, o Flamengo pôs a mão na taça.

1° Jogo

Em um Maracanã lotado, com a torcida, em sua maioria rubro-negra, dando show nas arquibancadas, Flamengo e Vasco entraram em campo buscando mais um título nacional. Título que seria inédito para os cruzmaltinos. Para os flamenguistas, seria a segunda conquista do Brasil, repetindo o feito de 1990, quando o Fla de Júnior derrotou o Goiás na final.

Desde o início do jogo, o esquema armado pelo técnico Ney Franco, que escalou o time em um 3-6-1, mostrou-se fundamental, e deu ao Flamengo superioridade durante praticamente toda a partida. O jovem Renato Augusto teve boa chance aos quatro minutos de jogo, em boa jogada individual. No contra-ataque, foi a vez de Edílson tentar abrir o placar, para o o time de São Januário.

Aos 30′, o Fla ameaçou de novo, em cabeçada de Fernando, após cobrança de escanteio de Renato Augusto. Três minutos depois, é a vez de Juan, após tabelar com o mesmo Renato Augusto, quase marcar. O Vasco respondeu em cobrança de falta de Ramón, aos 36. Mas, o placar não saiu do 0x0 no primeiro tempo da partida.

Já na segunda etapa, o Fla voltou com ainda mais gás. Logo aos 12′, Renato Augusto cruzou, a defesa do Vasco se atrapalhou, e Obina quase marcou. E foi ele mesmo, Obina, que havia acabado de entrar para decidir o jogo. Em escanteio muito bem cobrado por Renato Augusto, a bola quicou na área, e sobrou limpa para um lindo chute de primeira do atacante baiano. Flamengo 1×0 Vasco, e explosão dos rubro-negros na arquibancada.

A alegria ficou ainda maior dois minutos depois. Léo Moura recebeu sozinho na direita, avançou, e fez cruzamento na medida para o centroavante Luizão, de cabeça, marcar o segundo, e deixar o Flamengo muito perto da taça. O time de Renato Gaúcho tentou reagir. Aos 18, Abedi quase marcou. Aos 24, foi a vez de Andrade, que cobrou falta no travessão. Aos 31, Morais também tentou. E um último suspiro vascaíno veio aos 42, em outra cobrança de falta de Andrade, mas, a bola foi longe do gol.

O placar ficou no 2×0, e a torcida, que fez festa com o Maior Bandeirão do Mundo, patrocinado pela Nova Schin, e que uniu a Raça Rubro-Negra e a Torcida Jovem do Flamengo, e também com bandeiras em homenagem ao time campeão mundial de 1981, já começava a entoar o canto de “vice de novo”, provocando os rivais vascaínos e prevendo que o título viria na quarta-feira seguinte. De fato, ele veio, mas isso é história para outro artigo.

Ficha Técnica

FLAMENGO 2 x 0 VASCO
Final da Copa do Brasil 2006

Local: Maracanã, Rio de Janeiro (RJ)
Data: 19/07/2006
Árbitro: Leonardo Gaciba
Assistentes: Hilton Moutinho e Ana Paula de Oliveira

Gols: 14’/2ºT – Obina (FLA); 17’2ºT – Luizão (FLA)

FLAMENGO: Diego, Renato Silva (Obina), Ronaldo Angelim e Fernando; Leonardo Moura, Jônatas, Toró (Júnior), Renato, Renato Augusto (Rodrigo Arroz) e Juan; Luizão. Técnico: Ney Franco

VASCO: Cássio, Wágner Diniz, Fábio Braz e Jorge Luiz; Diego, Ives, Andrade, Morais e Ramon (Abedi); Valdiram (Ernani) e Edílson. Técnico: Renato Gaúcho.

2° Jogo

Após ter ganho o primeiro jogo por 2×0, o Flamengo entrou em campo na noite do dia 26 de julho de 2006 com uma vantagem considerável para a finalíssima da Copa do Brasil daquele ano, diante do Vasco, no Maracanã. Mas, clássico e clássico, e os jogadores do Fla, conscientes disso, trataram de rechaçar o favoritismo e entrar em campo com raça para conquistar o título. E conseguiram.

Em uma partida muito movimentada, o time da Gávea começou melhor, e logo com 1 minuto de jogo, Léo Moura deu ótimo passe para Renato Augusto, que sozinho, à frente do goleiro, desperdiçou a chance, mas animou a torcida. Quinze minutos depois, um lance crucial na partida. O atacante vascaíno Valdir Papel cometeu dura falta em Leonardo Moura, e como já tinha levado cartão amarelo, foi expulso. Mais festa ainda da torcida rubro-negra e um sinal de que o título estava próximo.

 

Mesmo atordoado com a expulsão de Valdir Papel, o Vasco quase abriu o placar, aos 18, quando Morais arriscou de fora da área. Mas o goleiro Diego salvou o rubro-negro, que, a partir daí, foi o dono do jogo. Aos 21, Obina recebeu passe de Renato dentro da área. Ele tentou o chute, a zaga cortou, e no rebote ele bateu por cima do gol.

 

Três minutos depois, aos 27, o lateral-esquerdo Juan entrou para a história do Flamengo. Após rebatida na área, a bola sobrou limpa para o jogador, na meia-lua. Com um chute forte no canto esquerdo, ele abre o placar. 1×0 para o Flamengo. Somando as duas partidas, 3×0, e ainda com um homem a mais em campo. O título estava garantido.

Na volta do intervalo, a equipe rubro-negra demonstrou seriedade e continuou pressionando os vascaínos. Aos 10, Obina acertou a trave. Aos 15, Jônatas quase marcou um golaço. Após driblar três marcadores, entrou na área, mas chutou fraco, para a defesa do goleiro Cássio. Aos 21, foi a vez de Luizão quase marcar. O atacante acertou a trave em chute de dentro da área. Aos 40, já com a certeza do título, a torcida começa a gritar olé e a soltar o grito de “Bicampeão” aliado a um coro já tradicional nos jogos decisivos contra o Vasco: “Ôôôô, vice de novo!”

 

Ficha Técnica

VASCO 0 x 1 FLAMENGO
2º Jogo da Final da Copa do Brasil 2006

Local: Maracanã, Rio de Janeiro (RJ)
Data: 26/07/2006
Árbitro: Carlos Eugênio Simon
Assistentes: Ednilson Corona e Aristeu Tavares

Gol: 27’/1ºT – Juan (FLA)

VASCO: Cássio, Wagner Diniz, Fábio Braz, Jorge Luiz e Diego; Ygor, Andrade (Abedi – 8’/2ºT), Ramon (Valdiram – 32’/1ºT) e Morais (Ernane – 12/2ºT); Edilson e Valdir Papel – Técnico: Renato Gaúcho

FLAMENGO: Diego, Rodrigo Arroz, Fernando e Renato Silva; Leonardo Moura, Jônatas, Toró (Obina – 19’/2ºT), Renato, Renato Augusto(Peralta – 31’/2ºT) e Juan; Luizão (Léo – 41’/2ºT) – Técnico: Ney Franco.

O Zico em Udine

O Zico em Udine

Em 1983 o Flamengo conquistou o Tricampeonato Brasileiro. Fizemos todos os jogos do campeonato e pudemos atestar a popularidade do Flamengo e da Raça. Onde o time jogasse, era festa na cidade e havia sempre gente querendo saber onde os “caras da Raça” estavam.

Numa dessas viagens, logo na primeira fase, fomos a Manaus, Belém e São Luiz. Em Belém, estávamos eu e Zé Carlos no saguão do hotel, fazendo hora, quando chega um grupo de rapazes dizendo-se fundadores da “Fla Fla de Belém”. Eles iam estrear no jogo contra o Paissandú e queriam oferecer o apoio da torcida. Um deles, médico, falou:

– Tudo o que vocês precisarem a gente faz.

Não sei porquê, me deu um estalo e eu falei:

– Tá bom, vamos agitar um pouco Belém. Isso aqui tá meio morno. Vamos promover esse jogo.

O pessoal da “Fla Fla” era bem relacionado e começamos uma peregrinação pelas rádios e televisões. Viramos celebridades locais, dando entrevistas, desafiando o Paissandú a fazer gol no Flamengo e, mais do que tudo, convocando toda a torcida do Flamengo para ficar onde a faixa da Raça estivesse. Foram dois dias de promoção, que agitaram a cidade. O jogo, que já ia ser sucesso garantido, arrebentou.

No domingo não cabia nem uma pulga no estádio, que estava sendo inaugurado (inacabado) naquele dia. Deu até medo do troço desabar. Mas o mais bonito era ver que 80% do estádio eram Flamengo, e que todo mundo que entrava apontava logo para a faixa da Raça e vinha em nossa direção. São espetáculos como esse que recompensam o esforço.

Mas é claro que o fato marcante de 1983 foi a venda do Zico para a Udinese. Uma tragédia. Uma frustração enorme ver o Galo jogando com outra camisa (e, o pior, alvi-negra). Quando foi anunciada a venda, a galera queria quebrar a Gávea. Foi uma loucura conter o pessoal. Só mesmo a liderança do Cláudio, pois, se fosse hoje, não sobrava nem azulejo da sede nova.

O que mais irritava era a atitude de indiferença de certos setores do Clube. No meio da confusão em que a Gávea se transformara, um “benemérito” gritou:

– Esses merdas ficam reclamando da venda do Zico. Mas foram quatro milhões de dólares! O Flamengo precisa desse dinheiro e esses favelados não devem nem ter noção do que é isso.

O Zé, que morava num apartamento que valia isso, berrou também:

– Quatro milhões acabam em um mês, com a roubalheira aqui dentro. Isso não é dinheiro para um clube do tamanho do Flamengo. O Zico é muito mais importante do que essa merreca, seu merda. Meu apartamento vale isso e tu não tem dinheiro pra comprar…

Ele ficou tão abalado que cheguei a sugerir que fosse a um analista.

Mas divã de torcedor fanático é a arquibancada. O Flamengo foi convidado para fazer o jogo de apresentação do Zico em Udine, e depois para participar do Mundialito de Clubes Campeões Mundiais, que seria realizado em Milão (Itália), com a participação da Juventus, Milan, Internazionale e o Peñarol, do Uruguai. Essa era a nossa oportunidade para espantar a depressão.

Só que, para variar, estávamos duros. Não dava para guardar dinheiro. Era viagem em cima de viagem, no Brasil e no exterior. Mas também não dava para perder a estréia do Galo. Impossível perder esse jogo. Fizemos os planos, contamos o dinheiro, vendemos o que restava para vender, e conseguimos uns trocados. Para nossa sorte, dessa vez o dólar paralelo estava com um ágio de quase 100% sobre o oficial.

Pegamos trezentos dólares (verdinhas) na mão, fomos a uma casa de câmbio trocar por cruzeiros, no mercado paralelo. Quase dobramos nossa grana. Depois fomos ao Banco do Brasil para comprar US$500,00 no câmbio oficial, em nome do Zé Carlos. Como o gerente era “componente da Raça”, nos deu a grana em papel (cash). Voltamos à casa de câmbio: vendemos os US$500,00 no paralelo e repetimos a operação no Banco do Brasil, agora em meu nome. Êta país legal! Com apenas duas atravessadas de rua transformamos US$300 em US$1000. Depois vendemos os US$1000,00 no parelelo e já deu para a entrada nas passagens aéreas. Puxa daqui, arranja dali, conseguimos mais uns trocados (em dólar). Para engrossar o orçamento, levamos cinqüenta camisas do Flamengo, pensando em vender a no mínimo, cinqüenta dólares cada. Compramos as passagens Rio-Madrid-Rio, planejando encarar o resto da viagem de trem. Sabia que, se a coisa apertasse, dava pra correr para Barcelona e rever os amigos do “Regencia Colon”.

Chegamos em Udine na véspera do jogo e ficamos num hotelzinho perto da estação. Nesta altura do campeonato, o Zico já era o dono da cidade: o prefeito, gari, médico, deputado etc. Ficamos conhecidos na cidade como “amigos do novo jogador” E olha que ele nem tinha estreado ainda. Quando chegamos ao hotel vestidos com a camisa do Flamengo, a diária baixou para vinte dólares (apartamento duplo). Já deu uma aliviada, porque tínhamos gastado mais de cento e cinqüenta dólares com passagens e comida de Madri até Udine.

Por volta das dez da manhã fomos ao hotel do Flamengo, que ficava nos arredores da cidade. Lembro-me bem da cara de espanto do doutor Taranto (medico da delegação) quando nos viu:

– Até aqui Moraes?! Não acredito! Eu já devia estar acostumado…

O Zico também estava no hotel. Uma confusão dos diabos. A imprensa do mundo inteiro estava lá, sem entender como o maior jogador do mundo foi jogar no Madureira de lá. Coisas da vida…

A essa altura todo mundo já tava sabendo “da nossa fama”, tanto assim que os dirigentes da Udinese se colocaram à nossa disposição. Nós só pedimos as entradas para a partida e que pudéssemos ir ao gramado colocar nossas faixas. Digo nossas porque tínhamos duas, desta vez: a tradicional, da Raça, e uma feita com esparadrapo no hotel, com os dizeres “Buona fortuna, Zico”. Na hora do jogo veio um carro nos levar e tivemos total liberdade para nos movimentar no estádio e colocar as faixas. Dentro do estádio fomos aplaudidos. Os caras deliravam… Já imaginou? Uma cidadezinha do tamanho de um ovo, recebendo o maior jogador do mundo, o que atraiu toda a imprensa do planeta? Alguém já havia ouvido falar de Udine???

Aproveitando o sucesso, abrimos logo a nossa “boutique”. Do nosso estoque só levamos dez camisas, que foram vendidas em pouco tempo a setenta dólares cada. Se tivéssemos levado todas para o estádio, não sobraria uma. Mais uma vez deu vontade de matar o Zé. Foi ele que insistiu que, em Milão, o preço seria maior… Levamos “um chocolate”. Eles fizeram 4 a 1 rapidinho e, se não fosse o Raul em dia inspirado, íamos tomar de dez. Triste mesmo foi ver o Zico jogar, ainda que só por quinze minutos, com aquela camisa preta e branca. O Zé estava arrasado, pronto para voltar para o psicanalista.

– Nunca pensei, Moraes, nunca pensei que fosse ver o Zico jogando contra. É de doer – choramingava ele.

No dia seguinte retornamos a Milão para ver o “Mundialito”. Nosso problema era grana e, nossa sorte, o Flamengo. Conhecemos um cara chamado William, brasileiro, goiano e flamenguista roxo, que morava em Milão e estudava medicina. Como era período de férias, ele conseguiu que ficássemos no dormitório da faculdade (que era católica) por sete dólares, por pessoa. Mais barato que isso impossível. O único inconveniente era o horário e a disciplina do local. Havia uma espécie de toque de despertar, às seis da matina, e outro de recolher, às dez da noite.

Conseguimos contornar a situação “subornando o administrador do prédio com uma camisa do Flamengo”. Assim, dormíamos o quanto quiséssemos e saíamos dos quartos quando a barra estava limpa. À noite era mais fácil. Os padres dormiam cedo e entrávamos pelos fundos, com a chave que o administrador nos emprestou. Íamos ficar quase quinze dias em Milão, com pouca grana (pouquíssima). Passeávamos pela cidade e íamos sempre para o hotel da delegação, que ficava num condomínio imenso, uma verdadeira cidade dentro de Milão. Tanto que se chamava Milano Due (Milão 2). Era longe pra burro, pegávamos um metrô e um trem para chegar lá.

Dada a nossa precária situação financeira, pedimos (pela primeira vez na vida) para ir aos jogos e aos poucos treinos no ônibus da delegação. Fomos prontamente atendidos, até porque parecia que a viagem era de férias. Todos os jogadores que quiseram levaram as mulheres, noivas, namoradas e agregadas. Havia também uns trinta diretores com as respectivas esposas. Uma verdadeira festa (o dinheiro da venda do Zico estava sendo bem aplicado…). Resolvemos, então, ser “beirinhas vips” (se arrependimento matasse…).

A Ana, mulher do Raul (goleiro), desconfiou que estávamos numa pior e, com instinto de “super-mãe”, todo dia, no café da manhã dos jogadores, preparava um verdadeiro farnel para nós: pão, biscoito, manteiga, geléia, queijo, frutas etc. Tudo devidamente surrupiado e entregue numa sacola. Aquilo era o nosso café, almoço, jantar e ceia. Manjar dos deuses para quem estava como a gente.

Na véspera da primeira partida recebemos um reforço de peso. Chegou de Londres, onde estudava inglês, o meu amigo Emanuel de Castro, o popular Danone. Por sinal, o Danone hoje é um grande produtor de filmes de surf, sendo bicampeão mundial dessa atividade e um “grandão” da TV Globo. Taí uma coisa que eu gostaria de entender: até à última vez que o vi, o Danone entendia tanto de surf como eu entendo de medicina nuclear, ou seja, nada. Se alguém quebrasse o quenco dele com uma prancha de surf, ele ia pensar que tinha sido atropelado por uma tábua de passar roupa… Por favor, meu irmão, me ensina o caminho das pedras!

Ficamos os três juntos até o final do torneio. No jogo contra o Milan vendemos as trinta camisas restantes. O menor preço foi de setenta dólares. Dependendo da cara do freguês, custava cem.

Decidimos o título com o Juventus e, além de jogarmos mal, fomos escancaradamente roubados pelo Juiz. Perdemos de 2 a 1. Jogamos tão mal que o próprio Presidente do Flamengo, que estava com a esposa… Saiu antes do final do jogo, resmungando:

– Nunca vi tanto rebolado na minha vida…

Após a partida algo bem mais desagradável do que a derrota nos esperava – o problema começou no dia em que aceitamos a gentileza do Flamengo de nos ceder ingressos. Apesar do gesto simpático, nós continuávamos sendo torcedores e fomos às próprias custas ver o nosso time jogar. Não éramos profissionais de torcida. E, como torcedores pagantes, tínhamos todo o direito de xingar, pedir raça, enfim, agir como um torcedor normal quando vê uma jogada errada ou um gol perdido. Isto é normal em qualquer estádio do mundo. Eu, particularmente, já xinguei o Zico, o Leandro, o Júnior, o Carpegiani, craques que também erravam. Uma das madames que viajou de graça se sentiu ofendida ao ver (ouvir) o nome do maridinho em nossas bocas, e foi reclamar com o Carlos Alberto Torres, técnico da equipe, que nós estávamos ofendendo os jogadores, chamando-os de maricas (quem ainda usa “maricas”?), frouxos, mascarados etc. Coisa típica de perua…

Depois do jogo, todo mundo de cabeça quente, e nós no ônibus que levaria a delegação de volta para o hotel. O Carlos Alberto Torres chegou no meio do ônibus e começou um discurso enaltecendo a raça do time do Flamengo. Até aí, tudo ia bem, se bem que nenhum de nós entendia onde ele queria chegar. De repente, ele passou a berrar e de dedo em riste:

– Você e você: – apontando para nós dois – nenhum jogador do Flamengo é maricas, frouxo ou covarde. São homens que honram a camisa…

A gente, sem entender absolutamente nada, falou:

– Tu tá maluco. O que aconteceu?

Ele e um dirigente, transtornados, partiram para me dar porrada. Vocês já viram o tamanho do homem? 2,95m por 0,90m, isso sentado. Desci do ônibus batendo todos os recordes de corrida com obstáculos. Quem salvou a pátria foi o Márcio Guedes, na época comentarista da TV Globo, que nos botou num carro e nos levou para o nosso mosteiro.

Arrasados, pela derrota e, principalmente, pelo incidente, iniciamos na mesma noite a volta para o Brasil, via Barcelona e Madri. Estava preocupado com o estado emocional do Zé, que nem falava, nem comia. Paramos um dia em Barcelona para “conversar” com o pessoal da VARIG.

É que nossos bilhetes aéreos eram da gloriosa PLUNA (Las Primeras Lineas Uruguayas de Navegacion Aerea). Alguém aí já viajou de Pluna? Naquela época, a simpática companhia aérea cobrava um preço baratinho para a Europa, mas em compensação… Pra resumir: certa vez, em um vôo, pedi um copo d’água. Ouvi na lata: vai pegar, se quiser! E na hora da comida, o comissário perguntava, no “gritão” mesmo: quem quer comer, levante a mão. Quem levantasse tinha que ficar esperto porque eles jogavam a bandeja na tua direção. Se pegasse, comia… Se não pegasse, levava uma bandejada nos cornos… Meus Deus! Socorro!!!

Nossas passagens eram para 5 dias após. Não dava mais para passar cinco dias na Espanha, sem dinheiro. Detalhe: nossos bilhetes Pluna não eram endossáveis. Usando a deplorável figura do Zé Carlos como argumento, consegui dobrar o gerente da VARIG, em Barcelona, que literalmente rasgou os bilhetes daquela companhia e nos colocou em um vôo (Varig) para o dia seguinte. Partimos no trem noturno para Madri. De manhã, já na capital espanhola, fizemos a única coisa sensata a fazer. Fomos para o aeroporto às onze da manhã para aguardar o vôo que saía à meia-noite.

Do aeroporto de Madri ligamos para o Cláudio no Brasil, e relatamos o ocorrido. Ele imediatamente se movimentou e no dia seguinte o Jornal do Brasil deu meia página sobre o episódio. Quando chegamos ao Galeão, a galera nos esperava num ato de desagravo. Não demorou muito o Carlos Alberto foi demitido do Flamengo…Pouco tempo depois, o presidente renunciou…

Emelec-Flamengo

Flamengo Campeão da Taça Libertadores da América 1981

A história costuma se referir ao período compreendido entre os anos de 1978 a 1983 como a Era de Ouro do Flamengo, delimitada, de um lado, pelo gol de Rondinelli contra o Vasco, e de outro, pela saída de Zico para a Itália. De fato, o time da Gávea empilhou taças conquistando quatro campeonatos estaduais, três brasileiros, a Libertadores e o Mundial, além de vários turnos do estadual – incluindo-se aí um pentacampeonato da Taça Guanabara – e torneios na Europa. Uma Era de Ouro, sem dúvida, mas que chegou a ser questionada justamente antes da arrancada para as duas maiores conquistas.

Ao ser eliminado do campeonato brasileiro de 1981, no dia 19 de abril, o Flamengo se viu às portas de uma crise com muitos personagens. Na verdade, cinco meses antes da derrota para o Botafogo nas quartas-de-final da Taça de Ouro, o time havia perdido a chance de disputar o tetracampeonato estadual ao ser derrotado pelo Serrano, de Petrópolis, com um gol que tornou o seu autor, o desconhecido Anapolina, uma celebridade instantânea. O revés no acanhado Estádio Atilio Maroti foi tratada como uma fatalidade, mas a eliminação diante do Botafogo expôs as chagas flamengas – existentes e inexistentes – em praça pública.

A edição de número 571 da Revista Placar, de 24 de abril de 1981, trouxe em sua página 12 uma matéria revelando a crise rubro-negra sob uma manchete em letras garrafais: CAIU UM IMPÉRIO. O texto assinado pelo jornalista Marcelo Rezende era taxativo: Todo grande time vive seu ciclo de glórias – e o do Flamengo sofreu uma brusca interrupção com a derrota de 3 a 1 para o Botafogo. Embora um dia isso tivesse que acontecer, ninguém imaginava que as conseqüências acabassem sendo tão dramáticas.

As citações usadas na reportagem refletem o ambiente do clube. Disse Júnior: – É o fim de tudo. Pensei que esse dia nunca fosse chegar. Perdemos o bi de maneira desastrosa. Já Tita, que vinha de uma campanha para vestir a camisa 10, acusava a imprensa: – A culpa é dos jornais, que vivem inventando crise no Flamengo. E sobre Tita, lá estava o sentimento de um torcedor anônimo, dizendo querer queimar vivo o jogador: – Como a polícia não deixa, queimo tua camisa! Para fechar o texto, Marcelo Rezende fitava o futuro incerto escorado nas ruínas rubro-negras: Resta ao Flamengo o desafio de reerguer o seu império desmoronado.

O técnico Dino Sani, contestado por deslocar Adílio para a ponta esquerda, teve seus planos esmiuçados pelo repórter Hideki Takizawa na edição seguinte da revista Placar, divididos em 6 tópicos: Devolver a titularidade a Rondinelli e vender Luís Pereira, contratado a peso de ouro; efetivar Mozer como quarto-zagueiro e barrar Marinho; dar a camisa 8 a Andrade e vender Adílio; comprar um ponta; acertar a renovação de Zico e vender Tita, que estava em descrédito com a torcida e, finalmente, restabelecer a paz entre Nunes e o resto do elenco.

O distanciamento histórico permite um diagnóstico mais preciso, até mesmo porque baseado nas soluções que foram encontradas – e a maior parte delas, as de campo e comando, estava ali mesmo, na Praça Nossa Senhora Auxiliadora, sem número, Rio de Janeiro. Dois problemas: Primeiro, o Flamengo pagava pelo cansaço de Júnior, Tita e Zico, divididos com a seleção brasileira em plena maratona das eliminatórias. Segundo, nem Dino Sani e nem o seu antecessor, o grande Modesto Bria, haviam conseguido substituir Cláudio Coutinho à altura. A primeira solução foi de calendário: a seleção brasileira se reuniu apenas uma vez por mês no segundo semestre, para amistosos. A segunda foi caseira: o melhor treinador para aquele grupo estava por perto, às voltas com as contusões que encerrariam prematuramente a sua carreira de meio-campista.

Aos 32 anos de idade, em meio ao turbilhão em que se encontrava a Gávea, Paulo César Carpegiani se tornou auxiliar técnico de Dino Sani. Mas a sua influência junto aos jogadores e o evidente poder de decisão renderam-lhe o apelido de “Golbery do Futebol”, alusão ao ministro-chefe do Gabinete Civil do então presidente do país, João Batista Figueiredo. Assim, na metade de junho, Carpegiani estava ao lado de Dino quando o Flamengo deu mostras de que estava recuperado do baque na Taça de Ouro, ao vencer o Torneio de Nápoles marcando dez gols em dois jogos, jogando com dois pontas abertos, Chiquinho e Baroninho.

A quatro dias da estréia na Taça Libertadores, a derrota por 2×1 para o Fluminense pela Taça Guanabara acendeu a luz de alerta. Embora tenha sido o primeiro resultado negativo no campeonato estadual, o tema no vestiário após o jogo era o pouco comando de Dino Sani como treinador e, na mesma toada, a falta que fazia a liderança de Carpegiani dentro das quatro linhas.

O Mineirão recebeu mais de sessenta mil pessoas na noite de sexta-feira, 3 de julho de 1981. Atlético Mineiro e Flamengo ainda tinham abertas as feridas da épica decisão do campeonato brasileiro do ano anterior. Para aumentar o drama, os dois treinadores – Pepe, no Galo, e o rubro-negro Dino Sani – estavam na corda bamba. Uma estréia com os nervos à flor da pele.

Os dois times tiveram chances de abrir o placar, mas o time da casa saiu na frente aos 28 minutos. Éder acertou uma bomba no ângulo esquerdo de Cantarele em uma cobrança de falta e incendiou o Mineirão. O Flamengo quase empatou em uma jogada individual de Vitor, que formava o meio de campo rubro-negro ao lado de Andrade e Zico. Nunes também esteve perto de marcar, em uma meia-bicicleta, mas o primeiro tempo acabou mesmo com a vantagem mineira.

Aos 18 do segundo tempo, em outra cobrança de falta, Éder abriu 2×0 – desta feita, em falha de Cantarele. A vantagem de dois gols não se consolidou. Ainda com o Mineirão em chamas, aos 20 minutos Zico enfiou uma bola para Nunes entre dois beques, e à saída de João Leite o centroavante rubro-negro tocou de leve, no canto direito, fazendo o primeiro gol do Flamengo na história da Taça Libertadores da América. Tita quase empatou o jogo em uma cabeçada que por pouco não encobriu João Leite, mas o feito caberia mesmo ao zagueiro Marinho, um dos mais contestados após a derrota para o Botafogo em abril. A 5 minutos do fim, Baroninho bateu um escanteio da ponta direita. A bola subiu e passou por toda a defesa, indo ao encontro de Marinho no bico esquerdo da pequena área. A cabeçada saiu alta, encobriu o goleiro atleticano e morreu no ângulo contrário, silenciando o Mineirão. Enquanto Dino Sani ganhava uma sobrevida, do outro lado o técnico Pepe era demitido pela diretoria atleticana.

No outro jogo do grupo, o clássico paraguaio entre Cerro Porteño e Olimpia, empate em 0x0. Antes da segunda rodada da Libertadores, o Flamengo conquistou antecipadamente o tetracampeonato da Taça Guanabara, festa que se prolongou com os 5×2 impostos ao Cerro Porteño no Maracanã, no dia 14 de julho. Dois gols de Zico – um deles em magnífica cobrança de falta, deixando o goleiro Fernández estático – abriram a porteira pela qual passaram também dois gols de Nunes e um de Baroninho, este também de falta. A goleada isolou o Flamengo na ponta da tabela, após o empate sem gols entre Olimpia e Atlético Mineiro, em Assunção.

Menos devido aos resultados e mais pelo rendimento do time, a diretoria rubro-negra promoveu a já esperada troca no comando técnico na véspera da partida contra o Olimpia, no Maracanã. Paulo César Carpegiani assumiu o posto na quinta-feira, dia 23 de julho, e no dia seguinte já assinaria a súmula como treinador do Flamengo. O programa Globo Esporte, da TV Globo, exibido no início da tarde de sexta-feira, confirmou a notícia e trouxe a primeira declaração de Carpegiani como técnico em rede nacional: – Eu acredito que não há dificuldade nenhuma, muito pelo contrário. Sempre adorei essa responsabilidade, e agora mais do que nunca estou pronto e apto para encarar esse problema com tranqüilidade.

O Flamengo precisava da vitória, eis que o Atlético havia vencido o Cerro Porteño três dias antes, no Paraguai, com um gol salvador de Éder no final do jogo. Adílio abriu o placar aos 22 minutos, pegando o rebote de uma falta cobrada por Baroninho, mas o goleiro Almeyda impediu que os atacantes rubro-negros transformassem a superioridade demonstrada no primeiro tempo em gols. O panorama mudou no segundo tempo, o Olimpia dominou o meio de campo e empatou com o lateral Solalinde. Os quase quarenta mil torcedores que foram ao Maracanã empurraram o time até o fim, mas o jogo acabou mesmo empatado.

Como os times brasileiros eram os favoritos do grupo, com uma única vaga em disputa, perder ponto em casa para os times paraguaios era um grande prejuízo. O Atlético também sofreu contra o Olimpia, dia 28 de julho, no Mineirão, vencendo por um minguado 1×0 e amargando a expulsão de Éder no último minuto. Desfalcado, três dias depois por muito pouco o time mineiro não perdeu para o Cerro em Belo Horizonte. Vaguinho marcou aos 43 do segundo tempo o último gol do empate em 2×2, deixando os times brasileiros empatados na classificação.

Flamengo e Atlético Mineiro voltaram a se enfrentar no dia 9 de agosto, diante de mais de 60 mil pessoas no Maracanã. Os jogadores rubro-negros celebraram um pacto por Carpegiani, prometendo a classificação na chave, e o time encurralou o adversário no primeiro tempo. Rondinelli quase marcou de cabeça, após um cruzamento de Júnior. Depois foi a vez de Nunes, que dominou no peito um passe de Zico e chutou rente ao ângulo direito. Logo em seguida, João Leite fez uma grande defesa em cobrança de falta de Júnior. Apesar do domínio, nada de gols até o intervalo, e o castigo veio aos 17 do segundo tempo: Palhinha fintou Rondinelli, driblou Raul e tocou para o gol vazio.

Uma vitória do Atlético deixaria a vaga muito perto dos mineiros, pois o Flamengo precisaria vencer seus dois jogos no Paraguai para forçar uma partida desempate. Empurrado pela torcida e pela necessidade, o Mais Querido foi em busca da virada. Aos 22 minutos, Raul saiu jogando com Júnior pelo lado esquerdo. Júnior avançou até a intermediária e esticou para Zico na ponta esquerda. O camisa 10 da Gávea foi encurralado pelo beque Heleno, mas aplicou-lhe um drible espetacular e cruzou para o meio da área. João Leite tentou interceptar, mas soltou a bola nos pés de Nunes, que não perdoou. Dois minutos mais tarde, para delírio do Maracanã, Tita roubou uma bola de Heleno e chutou de pé esquerdo, por baixo, indefensável, no canto direito de João Leite.

O Flamengo continuou atirado ao ataque, e quase matou o jogo em uma arrancada de Nunes pela direita. Mas aos 34, depois de uma tabela entre Cerezo e Palhinha, Reinaldo saiu na cara de Raul e empatou o jogo. Mais tarde, em entrevista ao radialista Kleber Leite, da Rádio Globo, Carpegiani lamentou que o time tivesse continuado a atacar incessantemente após virar a partida, mas disse ter fé em duas vitórias no Paraguai.

No dia 11 de agosto, no Defensores del Chaco, o Flamengo goleou o Cerro Porteño por 4×2, três de Zico e um de Baroninho. O terceiro gol rubro-negro, um sem-pulo fantástico de Zico, ecoou de norte a sul do Brasil com a narração épica de Jorge Cury pela Rádio Globo: – Baroni entregou a Tita, Tita recebe, prepara agora, executa o corte, bateu a Ribas, levanta à boca da meta, emenda Zico é gol com aço, é golaçooooo! Batido o Cerro, bastava uma vitória simples contra o Olimpia para avançar à fase semifinal da Libertadores. Uma vitória paraguaia classificaria ao Atlético, e um empate levaria os dois brasileiros para um jogo extra.

O Olimpia já estava eliminado, mas havia um clima de decisão. No mesmo vôo que levou o Flamengo ao Paraguai, estavam dois dirigentes do Atlético, abraçados a bolsas de couro. Eles não confirmaram, mas também não negaram que estavam levando dólares para premiar qualquer um dos times paraguaios que arrancasse ao menos um ponto do Flamengo. E pelo que se viu do Olimpia, naquele dia 14 de agosto, os paraguaios de fato jogaram com uma motivação pouco comum para um time eliminado.

O Flamengo teve uma chance logo no primeiro minuto. Zico entrou na área pela esquerda e rolou a bola em busca de Nunes, mas a zaga bloqueou. Aos 4, de novo Zico, em arrancada pelo meio que resultou em um chute que quase acertou o ângulo direito de Almeyda. Três minutos depois, Nunes cruzou da ponta esquerda e achou Zico na meia-lua, que dominou como um pivô e rolou para Leandro, na meia direita. O chute rasteiro do lateral saiu a um palmo do poste direito, com Almeyda vencido no lance. O Olimpia só ameaçou aos 11 minutos, em dois lances consecutivos, defendidos por Raul.

O Flamengo ainda teve uma oportunidade aos 33 em um chute longo de Vitor, defendido por Almeyda, mas a facilidade dos minutos iniciais desapareceu. As oportunidades de gol, fartas no primeiro tempo, se tornaram escassas na etapa final. Ainda assim, a torcida rubro-negra chegou a sentir o gosto da vitória aos 42 minutos. Tita fez uma jogada individual pela meia esquerda e chutou com efeito, no canto esquerdo. Almeyda espalmou e a bola ficou quicando na pequena área, ao lado do poste esquerdo, com o gol vazio. Chiquinho chegou absoluto no lance, mas ao invés de marcar o gol da vitória tentou servir a Nunes, só que tocou forte demais e a bola atravessou toda a pequena área. O Olimpia comemorou o 0x0 como se fosse um campeonato, e aos rubro-negros restava aguardar o jogo de desempate com o Atlético.

O palco escolhido foi o Serra Dourada, em Goiânia, que foi tomado por mais de 70 mil pessoas no dia 21 de agosto. O Flamengo estava melhor no jogo e já havia perdido dois gols, um com Carlos Alberto e outro com Nunes, quando Reinaldo cometeu uma falta violenta após ser driblado por Zico, aos 37 minutos. O centroavante foi expulso por José Roberto Wright e, após sucessivas reclamações dos atleticanos, Palhinha, Éder, Osmar e Chicão também foram expulsos. Este último admitiu, em entrevista ao repórter Raul Quadros, ainda no campo de jogo, que foi expulso porque sugeriu ao árbitro que expulsasse alguém do Flamengo para compensar. Sem o número mínimo de jogadores no Atlético para continuar o jogo, Wright deu a partida por encerrada e o Flamengo foi declarado vencedor. Os mineiros recorreram à confederação sul-americana, mas o resultado foi mantido. Mas no próprio Atlético, a atitude dos jogadores que tumultuaram a partida após a expulsão de Reinaldo foi questionada internamente, o que resultou na dispensa de Palhinha e Chicão, dias depois.

Até começar a fase semifinal da Libertadores, no início de outubro, o Flamengo se dedicou ao campeonato estadual e a um amistoso histórico, no dia 15 de setembro. Marcando a despedida oficial de Paulo César Carpegiani dos gramados, os rubro-negros enfrentaram o Boca Juniors, de Diego Armando Maradona. Vitória do time de Zico por 2×0, com dois gols do craque maior. Um bom aperitivo para os desafios continentais que se avizinhavam.

O grupo formado por Flamengo, Deportivo Cali e Wilsterman definiria uma finalista da Libertadores. A estréia rubro-negra, em Cali, no dia 2 de outubro, foi uma prova de fogo. Nunes marcou logo aos 10 minutos, de pé esquerdo, mas a correria dos jogadores colombianos não permitiu ao Flamengo impor o seu ritmo cadenciado, e a vantagem só foi mantida até o final graças às grandes defesas de Raul.

A partida mais difícil da fase foi disputada no dia 13 de outubro, a 2.560 metros acima no nível do mar, em Cochabamba. Mais de 35 mil bolivianos gritando em pé, dentre eles o presidente do país, que discursou antes do jogo dizendo que o Wilsterman era a própria Bolívia, transformaram o jogo em uma causa nacional. O clima de euforia no estádio Félix Capriles só diminuiu aos 13 minutos, quando Baroninho desferiu um petardo em uma cobrança de falta e fez o primeiro gol da noite. O Flamengo conseguiu segurar o resultado durante o primeiro tempo, mas aos 8 minutos da etapa final Melgar entrou na área pela direita e chutou rasteiro contra a saída de Raul: 1×1.

O ar começou a faltar para os rubro-negros, e o Wilsterman conseguiu o domínio territorial. Para ganhar fôlego, Carpegiani substituiu Chiquinho por Lico. Naquele momento, o Flamengo começou a ganhar o jogo, e o catarinense a titularidade. Mais do que um ponta, Lico foi um quarto homem de meio de campo que fez o time brasileiro respirar no jogo. De seus pés, aos 19 minutos, saiu a cobrança de escanteio que encontrou Adílio na marca do pênalti. O camisa 8 cabeceou forte, no ângulo esquerdo, e marcou o gol que deixou o Flamengo muito próximo da finalíssima sul-americana.

O Flamengo não teve dificuldades para vencer os dois jogos de volta, aplicando 3×0 no Deportivo Cali e goleando o Wilsterman por 4×1. Na verdade, a vaga na final havia sido assegurada nas duas vitórias fora de casa, e o último desafio na Libertadores seria um violento time de camisas alaranjadas vindo do deserto. O Cobreloa de Mario Soto.

Além das finais da Libertadores, o Flamengo disputava ainda o terceiro turno do campeonato carioca – o Vasco havia vencido o segundo turno. Assim, a semana do primeiro jogo contra os chilenos foi extenuante: domingo, dia 8 de novembro, clássico contra o Botafogo; terça, Americano de Campos; Cobreloa na sexta e Fla-Flu no domingo. A torcida rubro-negra cogitou pedir licença à Suderj para acampar no Maracanã.

Além de entrar para a história como o Jogo da Vingança, os 6×0 impostos ao Botafogo também tornaram definitivo o desenho tático do melhor time do mundo. Aquela foi a primeira partida de Lico como dono absoluto da camisa 11, o que tornou a goleada um marco tático para o futebol brasileiro: Andrade era o primeiro homem do meio, mas de Adílio em diante ninguém tinha posição fixa, e esse carrossel rubro-negro ainda recebia o apoio constante de Leandro e Júnior. Era impossível parar aquele Flamengo.

Mais meia-dúzia de gols para cima do Americano na terça, e o filme se repetiu no primeiro contra o Cobreloa. Diante de 94 mil rubro-negros, o time chegou a ensaiar outra goleada. Dois gols de Zico, o primeiro em tabela com Adílio e o segundo convertendo pênalti sofrido por Lico, criaram uma vantagem que poderia até ser maior não fosse o goleiro Wirth. Mas no segundo tempo a sequencia de jogos cobrou o seu preço, e o cansaço custou um gol chileno.

Dois dias depois, vitória de 3×1 no Fla-Flu com direito a um golaço do novo titular, Lico. Sem poupar jogadores, o Flamengo havia vencido quatro jogos em uma semana , o que justificaria um período de repouso. Mas na verdade, ninguém queria descansar naquela semana. O Flamengo – seus jogadores e sua torcida – queria mesmo era que chegasse logo o dia 20 de novembro, para o jogo decisivo em Santiago do Chile.

Dizia-se que a Libertadores era uma guerra, e poucos momentos podem comprovar essa teoria tão bem quanto aquela sexta-feira sangrenta, que tingiu de vermelho o gramado do Estádio Nacional de Santiago. Vermelhas também ficaram as camisas brancas de Adílio e Lico, covardemente agredidos por Mario Soto sob o olhar complacente do árbitro Ramón Barreto. O Flamengo resistiu até os 33 minutos do segundo tempo, quando uma cobrança de falta desviu em Leandro e enganou Raul, resultando no único gol da partida. Tudo seria decidido em um joga extra no Uruguai.

Os rubro-negros alimentaram o desejo de revanche durante o fim de semana, e na segunda-feira pisaram o gramado do Estádio Centenário carregando a bandeira uruguaia, Zico e Leandro a frente. Jogariam naquela noite para provar que com as armas do esporte ninguém bateria aquele time. Jogariam para vingar o sangue derramado em Santiago. Jogariam por Lico, que não se recuperou dos ferimentos e fez um único pedido a Adílio: – Dê um drible em Mario Soto por mim.

E como jogou Adílio naquela noite, como se o fizesse por ele, por Lico e pelos milhões de rubro-negros. Aos 17 do primeiro tempo ele recuperou uma bola na área chilena e entregou a Andrade, que achou Zico no meio da área. Zico acertou um voleio no canto direito e abriu caminho para o título. Pouco depois, Alarcon cometeu uma falta violenta em Adílio, como se ainda contasse com a impunidade que reinou em Santiago, mas foi expulso por Roque Cerullo.

O Cobreloa continuou batendo, e em um lance de revide, Andrade também foi expulso. Ainda assim, na bola só dava Flamengo, e aos 30 minutos Adílio escapou livre e tentou um toque para encobrir o goleiro Wirth, que já estava fora da área e impediu o drible com as mãos. Falta na entrada da área. Adivinha quem vai bater, pergunta a música, adivinha quem vai bater com a perfeição costumeira, deixando o goleiro chileno congelado no lance? Zico, rei da Nação Rubro-Negra, botou a sua assinatura inconfundível na sentença que declarava o Flamengo o melhor time da América do Sul.

Ainda houve tempo para o reserva Anselmo entrar no jogo e devolver as agressões a Mario Soto, que havia deixado escoriações em Adílio, Lico, Zico e Tita. Mas o que todos queriam era mesmo começar a festa, que seria curta porque ainda havia um campeonato carioca por conquistar e uma longa viagem para Tóquio na metade de dezembro, e todos mereciam festejar aquela taça conquistada com sangue, suor e talento.

Em sua reportagem publicada na Revista Placar, o mesmo Marcelo Rezende que havia anunciado a queda do império rubro-negro meses antes, afirmava que aquele Flamengo campeão sul-americano seria também campeão mundial. Talvez ele tenha firmado sua convicção no instante em que a delegação rubro-negra desembarcou no galeão no dia 24 de novembro de 1981, e Zico mostrou a Taça Libertadores da América aos milhares de súditos que aguardavam a chegada do Rei e dos demais campeões sul-americanos, e os gritos de campeão se espalharam pelo Rio de Janeiro. Estava provado que o império estava mais forte do que nunca.

Ficha Técnica

FLAMENGO 2×0 COBRELOA
Finalíssima da Taça Libertadores da América 1981

Local: Estádio Centenário, Montevidéu (URU)
Data: 23 de Novembro de 1981
Árbitro: Cerullo (Uruguai)

Gols: Primeiro tempo: Zico 18min, Segundo tempo: Zico 39min

FLAMENGO: Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Adílio, Andrade e Zico; Tita, Lico e Nunes. Técnico: Paulo César Carpeggiani

COBRELOA: Wirth.Tabile. Paes (Munõz). Mario Soto e Escobar. Jimenez. Marello e Alarcon. Puebla. Siviero e Washington Oliveira. Técnico: Vicente Cantatore.

Júnior

Júnior

JúniorLeovegildo Lins da Gama Junior, mais conhecido como Junior, foi um dos melhores jogadores futebol de todos os tempos, entre os três maiores laterais-esquerdos, e um dos grandes ídolos da história do Flamengo.

Fez parte do elenco mais vitorioso da história do Flamengo e é o recordista de partidas oficiais pelo clube, com 857 jogos.

Fez também parte de grandes elencos da Seleção Brasileira, participou das Olimpíadas de Montreal em 1976 e das Copas do Mundo de 1982 e 1986.

Junior nasceu em João Pessoa no dia 29 de junho de 1954, mas veio cedo para o Rio de Janeiro.

Chegando à Cidade Maravilhosa, o garoto chamou a atenção do treinador do Flamengo, Modesto Bria, quando disputava peladas na Praia de Copabacana. Levado para a Gávea, estreiou como profissional no ano de 1974. No início, era lateral direito, mas atuava também no meio-de-campo.

Logo um mês após sua estréia no time de cima, o jovem Junior demonstrou todo o seu talento e sua estrela. Marcou dois gols em uma partida decisiva contra o América, que foi fundamental para a conquista do Campeonato Estadual daquele ano.

JúniorAnos depois, sob o comando de Cláudio Coutinho, Junior passou a jogar improvisado, como lateral-esquerdo. E a estrela dele brilhou mais uma vez. Por muito tempo. Nascia um dos maiores jogadores na posição na história do futebol brasileiro, comparado por muitos ao grande Nilton Santos.

Conhecido como “Capacete”, devido ao seu cabelo black power, o jogador fez parte da Era de Ouro do Flamengo, e é o segundo maior ídolo da história do Clube, atrás apenas de Zico. Com muita competência, bons passes e muita habilidade, Junior foi decisivo nas maiores conquistas dos 112 anos de glórias do Flamengo. Ganhou seis Taças Guanabara, uma Taça Rio, seis Campeonatos Cariocas, uma Copa do Brasil, quatro Campeonatos Brasileiros, a Taça Libertadores da América e o Mundial Interclubes.

JúniorJunior ficou dez anos seguidos no Flamengo, de 74 a 84, quando deixou o Clube para conseguir sua independência financeira, ao ir atuar no Torino e no Pescara, da Itália. Mas, como diz o ditado, “o bom filho à casa torna”. Mais experiente, o “Capacete” virou “Vovô Garoto”, pela velocidade e pelo ritmo que imprimia apesar da idade, e ajudou o Flamengo a conquistar a Copa do Brasil, em 1990, e o Penta Campeonato Brasileiro, em 1992, cujo grande craque foi ele. Na Seleção, Junior participou da equipe que disputou a Copa de 1982, considerada por muitos a melhor Seleção Brasileira de todos os tempos, e atuou também em 1986.

Se despediu dos campos em 93, e depois ainda treinou o Rubro-Negro em duas oportunidades: de 1993 a 1994 e em 1997. Foi vice-campeão carioca em 94, e totalizou 35 vitórias, 21 empates e 20 derrotas, em 76 partidas. Pouquíssimo tempo perto dos treze anos em que vestiu o Manto Sagrado como jogador, sendo o recordista em número de jogos com a camisa rubro-negra: 874.